quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O GATO MALHADO

     Quando a primavera chegou, vestida de luz, de cores e de alegria, olorosa de perfumes sutis, desabrochando as flores e vestindo as árvores de roupagens verdes, o Gato Malhado estirou os braços e abriu os olhos pardos, olhos feios e maus. Feios e maus, na opinião geral. Aliás, diziam que não apenas os olhos do Gato Malhado refletiam maldade, e sim, todo o corpanzil forte e ágil, de riscas amarelas e negras. Tratava-se de um gato de meia-idade, já distante de primeira juventude, quando amara correr por entre as árvores, vagabundear nos  telhados, miando  à  lua  cheia  canções  de  amor,  certamente  picarescas  e debochadas.  Ninguém  podia imaginá-lo entoando canções românticas, sentimentais.
          Naquelas  redondezas  não  existia  criatura  mais  egoísta  e  solitária.  Não mantinha  relações  de amizade com os vizinhos e quase nunca respondia aos raros cumprimentos que, por medo e não por gentileza, alguns passantes lhe dirigiam. Resmungava de mau humor e voltava a fechar os olhos como se lhe desagradasse todo o espetáculo em redor. 
           Era,  no  entanto,  um  belo  espetáculo,  a  vida  em  torno,  agitada  e mansa.  Botões  nasciam perfumados e desabrochavam em flores radiosas, pássaros voavam entre trinados alegres, pombos arrulhavam amor, ninhadas de pintos recém-nascidos seguiam o cacarejar da orgulhosa galinha, o grande Pato Negro fazia a corte à linda Pata Branca, banhando-a na água dó lago. Folgazões, os cachorros divertiam-se saltando sobre a grama. 
            Do Gato Malhado ninguém se aproximava. As flores fechavam-se se ele vinha em sua direção: dizem que certa vez derrubara, com uma patada, um tímido lírio branco pelo qual se haviam enamorado todas as rosas. Não apresentavam provas, mas quem punha em dúvida a ruindade gatarraz? Os pássaros ganhavam altura ao voar nas imediações do esconso onde ele dormia. Murmuravam inclusive ter sido o Gato Malhado o malvado que roubara o pequeno sabiá do seu ninho de ramos. Mamãe Sabiá, ao não encontrar o filho para o qual trazia alimento, suicidou-se enfiando o peito no espinho de um mandacaru. Um enterro triste e naquele dia muitas pragas foram pronunciadas em intenção do Gato Malhado. Provas não existiam, mas que outro teria sido? Bastava olhar a cara do bichano para localizar o assassino. Bicho feio aquele. 
            Os pombos iam, amar longe dele: havia quase certeza de que fora ele quem matara — para comer -.. a mais linda pomba-rola do pombal, e, desde então, certo pombo-correio perdeu a alegria de viver. Faltavam as provas, é verdade, mas — como disse o Reverendo Papagaio — quem podia tê-lo feito senão aquele sinistro personagem, sem lei nem Deus, tipo á-toa? 
            As maternais galinhas ensinavam aos pintos cor de ouro como evitar o Gato Malhado em cujas mãos criminosas —. segundo afirmavam — muitos outros pintainhos haviam perecido (isso sem falar nos ovos que ele roubava dos ninhos para alimentar seu ignóbil corpanzil). Tampouco o Pato Negro queria saber dele, pois o gatarrão não amava a água do lago, tão querida do casal de patos. Os cachorros o haviam procurado para com ele correr e saltar. Mas ele os arranhara nos focinhos e os insultara, eriçando o pêlo, xingando-lhes a família, a raça, os ascendentes próximos e distantes. 
(O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Uma História de Amor - JORGE AMADO) 
01. O gato malhado demonstra o seu poder e domínio em relação aos mais fracos. Em nossa sociedade (seres humanos), é comum encontrarmos alguém ou uma classe social dominando, explorando a outra? Justifique sua resposta. 
 02. Identifique, no texto, o tempo e o espaço. Não esqueça de exemplificar com passagens da narrativa. 
03. O clímax é o ponto de maior tensão de uma narrativa. No texto, qual parágrafo podemos afirmar como sendo o ponto máximo da história? Justifique. 
04.  É  muito  fácil  identificarmos  a  descrição  física  do  personagem  no  texto. Identifique  características psicológicas do gato malhado. 

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