Naquelas redondezas não existia criatura mais egoísta e solitária. Não mantinha relações de amizade com os vizinhos e quase nunca respondia aos raros cumprimentos que, por medo e não por gentileza, alguns passantes lhe dirigiam. Resmungava de mau humor e voltava a fechar os olhos como se lhe desagradasse todo o espetáculo em redor.
Era, no entanto, um belo espetáculo, a vida em torno, agitada e mansa. Botões nasciam perfumados e desabrochavam em flores radiosas, pássaros voavam entre trinados alegres, pombos arrulhavam amor, ninhadas de pintos recém-nascidos seguiam o cacarejar da orgulhosa galinha, o grande Pato Negro fazia a corte à linda Pata Branca, banhando-a na água dó lago. Folgazões, os cachorros divertiam-se saltando sobre a grama.
Do Gato Malhado ninguém se aproximava. As flores fechavam-se se ele vinha em sua direção: dizem que certa vez derrubara, com uma patada, um tímido lírio branco pelo qual se haviam enamorado todas as rosas. Não apresentavam provas, mas quem punha em dúvida a ruindade gatarraz? Os pássaros ganhavam altura ao voar nas imediações do esconso onde ele dormia. Murmuravam inclusive ter sido o Gato Malhado o malvado que roubara o pequeno sabiá do seu ninho de ramos. Mamãe Sabiá, ao não encontrar o filho para o qual trazia alimento, suicidou-se enfiando o peito no espinho de um mandacaru. Um enterro triste e naquele dia muitas pragas foram pronunciadas em intenção do Gato Malhado. Provas não existiam, mas que outro teria sido? Bastava olhar a cara do bichano para localizar o assassino. Bicho feio aquele.
Os pombos iam, amar longe dele: havia quase certeza de que fora ele quem matara — para comer -.. a mais linda pomba-rola do pombal, e, desde então, certo pombo-correio perdeu a alegria de viver. Faltavam as provas, é verdade, mas — como disse o Reverendo Papagaio — quem podia tê-lo feito senão aquele sinistro personagem, sem lei nem Deus, tipo á-toa?
As maternais galinhas ensinavam aos pintos cor de ouro como evitar o Gato Malhado em cujas mãos criminosas —. segundo afirmavam — muitos outros pintainhos haviam perecido (isso sem falar nos ovos que ele roubava dos ninhos para alimentar seu ignóbil corpanzil). Tampouco o Pato Negro queria saber dele, pois o gatarrão não amava a água do lago, tão querida do casal de patos. Os cachorros o haviam procurado para com ele correr e saltar. Mas ele os arranhara nos focinhos e os insultara, eriçando o pêlo, xingando-lhes a família, a raça, os ascendentes próximos e distantes.
(O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Uma História de Amor - JORGE AMADO)
01. O gato malhado demonstra o seu poder e domínio em relação aos mais fracos. Em nossa sociedade (seres humanos), é comum encontrarmos alguém ou uma classe social dominando, explorando a outra? Justifique sua resposta.
02. Identifique, no texto, o tempo e o espaço. Não esqueça de exemplificar com passagens da narrativa.
03. O clímax é o ponto de maior tensão de uma narrativa. No texto, qual parágrafo podemos afirmar como sendo o ponto máximo da história? Justifique.
04. É muito fácil identificarmos a descrição física do personagem no texto. Identifique características psicológicas do gato malhado.
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